Picadinho

"Sou como carne de segunda: depois de tomar umas boas porradas da vida, amaciei."

Era o começo de um conto que eu escrevia.
Mas aí coisas estranhas começaram a me vir à cabeça.
Filé mignon, por exemplo.
Martelo de carne.
Comecei a fazer associações estranhas, a lembrar de trocadilhos imbecis.
Achei de mau gosto.
Interrompi a história.
Quando eu parar de rir e recuperar a vergonha, volto ao texto.

***

Eu já estou começando a achar graça nas coisas.
É onde mora o perigo.

***

Madame 1 gasta as tardes (e o $ alheio) fazendo compras pela internet em uma espécie de "leilão virtual" de artigos exclusivos de griffe.
Madame 2 passa os dias entre compras, passeios e vinhos em boas pastagens.
Tudo muito adequado e pertinente.
Nas horas vagas, ambas também se dedicam a outras atividades menos glamurosas.

Eu fui ali na farmácia comprar remédios e artigos de higiene, e depois no hortifruti comprar jiló para a Ave e damascos.
Cada um tem a vida que deve.

***

Falando na Ave, poucos meses depois de se tornar minha hóspede, ela já assumiu a personalidade de seus anfitriões.
De manhãzinha, é mal humorada e taciturna, não gosta de papo.
Abre as asas, o bico, e faz cre-cre-cre resmungando se insistimos num bom dia.
Depois, lá pelas seis e pouco da manhã, desanda a cantar.
E aí é assim o dia inteiro.
E é do contra: quando está frio, resolve tomar banhos demorados na banheirinha.
Quando está calor, não.
À noite, se esquecemos a luz da cozinha e da área acesa, fica piando (é um "pio" determinado, expressivo, só para o assunto "luz acesa, quero dormir!") até apagarmos a luz.
Daí fica quieta e dorme.
Quando a folha de alface cai da gaiola, é outro pio insistente (um "pio" determinado, expressivo, só para o assunto "folha de alface caiu; vem aqui prendê-la de novo na gaiola!").
Daí fica quieta e come.

Eu me divirto.
Aliás, eu me divirto com pouco mesmo.