Um longo caminho, muitas razões

Dia de pesagem e consulta com a nutricionista: - 15,200 kg no total, de fevereiro para cá.

Como? Ou melhor: por quê?

Um longo caminho e muitas razões.

Hoje me perguntaram onde "compra" perseverança.

Explico em poucas palavras, mas a história e longa e essa compra teve várias motivações.

Parte da história a maioria já conhece: a tromboflebite no início do ano, 10 dias de repouso, exames médicos, diagnóstico de diabetes melito 2 (certamente por sedentarismo e sobrepeso), hipercolesterolemia, discreta anemia. Ou seja, eu estava me matando. ME matando.

Entraram em cena médico, nutricionista, personal trainer. Tudo aquilo para que eu sempre torci o nariz: coisa de gente 'fresca'; eu posso fazer sozinha; sempre pude fazer tudo sozinha.

Não, não pude. Precisei de ajuda, apoio, estímulo, motivação e encontrei nessas pessoas. E dentro de mim mesma, o que foi essencial. Se lá dentro eu não quisesse e não pudesse, não adiantaria. Vencer o não posso, não consigo foi o mais difícil. Só que eu queria viver melhor. Mais e melhor. Sobretudo, melhor comigo mesma, que era a parte mais difícil, porque é onde lidamos com o pior e o melhor que temos dentro de nós: somos nosso próprio paraíso e inferno pessoal. E, no meu caso, o tamanho do inferno era enorme; um buraco sem fundo sem tamanho.

É claro que o primeiro passo foi a motivação da saúde, ter resultados de exames que não me levassem a crer que em pouco tempo eu viraria lembrança. Mas, na verdade, lá no fundo, no fundinho, no meio daquela voz deep throat que só você escuta - quando ouve -, a real motivação era 'ser melhor'. Não A melhor, mas apenas ser melhor do que eu era, do que estava sendo nos últimos anos. Melhor para mim.

Várias razões me levaram ao sedentarismo (incluindo meu ofício) e ao ganho de peso. Muitas outras me levaram a comer demais e errado. Eu simplesmente não via. E, quando passei a enxergá-las, o mais complicado foi lidar com elas, pois significaria olhar para o inferno sem sequer saber como e quando e se eu chegaria ao paraíso.

Falar de baixa autoestima é clichê. Falar de falta de autoconfiança, pior ainda. Isso é, era e sempre foi óbvio. Mas a roupa de Patinho Feio foi vestida, moldada, costurada e soldada em mim. Ficou colada no meu corpo e na minha alma. E era dela que eu teria de me livrar para vencer. Vencer, não, conseguir.

O mundo é mau, dizem. O mundo masculino é muito mau. E o mundo feminino, pior ainda. Os tais padrões e moldes existem, são cultuados e tornam-se ferramentas opressoras e cruéis para quem os ignora e para quem os abraça. Eu ignorava. Eu era "cabeça". Acreditava que "o de fora" era simplesmente uma casca, que valia o interior. Bullshit. Você é tratado como aparenta ser. Ponto final. Depois, com sorte, as pessoas (e até mesmo você) o tratarão pela sua essência, caso consigam chegar lá, o que também é difícil nos dias de hoje.

Depois que fiz 40 anos, isso tudo veio como uma avalanche. Olhar padrões e crenças, rever e repensar padrões e crenças. Isso tudo me olhando e me vendo gorda, cansada, flácida, com a pele ruim, o cabelo pior ainda, o ânimo no pé. Justamente fruto de quem não se olhava nem por fora, nem por dentro. Fruto de caminhos com atalhos tortuosos, autoengano, miopia galopante. Ou seja, no fundo, eu estava bem pior por dentro do que por fora. E foi aí que mudou.

Eu queria as duas coisas que, sempre achei e sempre me disseram, eram antagônicas: queria ser inteligente E bonita. Impossível. No meio em que vivo e quase sempre vivi, mulher bonita é burra e mulher inteligente é feia. As intelectuais de plantão da minha adolescência a início de fase adulta eram, coitadas, medonhas. E ainda faziam questão de ficar mais medonhas justamente em função dessa falácia: um(a) intelectual, uma pessoa inteligente, culta, whataver, tem de ser um desmazelado, porque é "feio" e "errado" valorizar a tal casca. Bullshit dois.

Neca de perfume gostoso, maquiagem, bijus e roupas bonitas. Isso é coisa de 'gente vazia'. Hum-hum. Enquanto isso, o mundo evoluiu e eu fiquei estancada naquele paradigma. Boa mãe, boa esposa, boa dona de casa, boa profissional, boa filha, boa leitora e um bagulho. Um bagulho infeliz que só não via o quanto era infeliz, presa que estava nessas amarras que os outros (e nós, né?) nos impõem: preencher, atender a padrões, encaixar-se em.

Foi esse, então, o preço da tal perseverança. Simples até. E tão complicado também. Me sentir bem comigo mesma sem atender a, me encaixar em, preencher o(a). Ser o que eu queria ser. Ser o que eu queria ser para mim. Foi esse, então, o caminho de ter perdido peso, de ter saído da casca, de ter me respeitado mais e mais como a profissional que sou. Sozinha. Pela primeira vez, sem olhar muito (ou só) para os lados.

Um longo caminho, muitas razões. Na verdade, uma só: ser mais feliz.





Paris, 2009