Hoje você faria 89 anos.
Lembro tanto desse dia. Dezembro, um calor senegalesco. Eu, mais uma "noiva Lady Di", moda na época, vestido repolhudo, muito pano, muita manga, muita cauda. Um generoso decote nas costas por onde de vez em quando entrava um fresquinho. Véu, buquê verde. Eu já tinha retirado grande parte da maquiagem de salão com lenços de papel. Desfiei uns fios de cabelo na testa. Estraguei o trabalho do maquiador, do cabeleireiro, mas retirei tudo o que era demais pra mim. Eu, uma menina de 21 anos. Primeira vez que fazia escova, sobrancelha, unha. A "tomboy" não aguentava toda aquela produção.
Ficamos sozinhos no apartamento esperando a hora de ir para a igreja. Você entrou, me olhou emocionado, num misto de alergia, orgulho e pânico ao levar sua caçulinha ao altar. Você não bebia, mas nos serviu uma dose de uísque com muito gelo. Bebemos juntos, fumamos um cigarro juntos. O tempo não passava.
Fomos quietos no carro pomposo. Tarde linda.
Aleluia. Literalmente, a de Handel, na hora de entrar. Paralisei. Você me puxou levemente. "Vamos". Entrei, o corpo todo retesado, forçando um sorriso, no que parecia um filme. Vi todas as pessoas, minha mãe, meus irmãos, meu então noivo de olhos úmidos, emocionado. Você me entregou a ele, beijou suavemente o meu rosto, e eu agradeci baxinho por tudo, por aquele momento, por aquela entrada e pela vida inteira em que você me conduziu, me orientou, me aconselhou, me acarinhou e me fez sentir a mais aceita das criaturas.
Eu sou aquilo que você viu em mim, meu pai.

Não há um único dia em que não lembre de você e sinta a sua falta, meu melhor amigo. Sempre, meu pai.